quinta-feira, 14 de maio de 2026

HISTÓRIA DA SAÚDE EM ITAÚNA (III)

 HOSPITAL MANOEL GONÇALVES ITAÚNA MG

UM MÉDICO RECÉM-FORMADO

O Dr. Hely Nogueira, filho do Sr. Urquiza Nogueira e Dª Ana Dornas Nogueira, formara-se em medicina em dezembro de 1928, aos 21 anos de idade. Ele instalara o seu consultório no cômodo da loja, da casa velha do senhor seu pai, exatamente na esquina da praça [...]. Era uma casa antiga, onde morava o Sr. Urquiza Nogueira e seus familiares.

Precisamente na esquina, havia um cômodo de loja que estava vazio, com duas portas de madeira que davam para a praça e outra para a Travessa 2 de Janeiro, hoje Rua Coronel Artur Vilaça. Naquele local, o Dr. Hely instalara o seu consultório para o atendimento aos seus clientes.

Havia diversos médicos radicados na cidade, que clinicavam aqui há muitos anos; no entanto, fui procurar um médico recém-formado para o tratamento de minha saúde, precisamente porque ele se especializara nesse ramo da medicina, que era o tratamento de moléstias venéreas.

Hoje, no entanto, de acordo com a sua propaganda em jornais, a sua especialidade era “distúrbio psicossexuais”.

Ele atendia no seu consultório e trabalhava também na Casa de Caridade “Manoel Gonçalves”. Era um moço baixo, forte, pela clara, tipo alourado, comunicativo, muito atencioso e procurava sempre contagiar os seus clientes com o seu otimismo.

Iniciado o meu tratamento, ele começou a fazer experiência, uma vez que não lhe era possível diagnosticar o fundo maligno da minha moléstia. Naquele tempo não havia os recursos que existem hoje na medicina e por isso, os médicos lutavam também com as suas dificuldades, para que pudessem descobrir determinada moléstia.

No decorrer do tempo, a doença fora-se desenvolvendo em ritmo contínuo, ao invés de retroceder na sua marcha destruidora, com a aplicação terapêutica do facultativo. O Dr. Hely me atendia em seu consultório e no hospital também.

Não havia necessidade de ficar de cama, mas precisava de fazer certo repouso, não andar muito, o que não acontecia, entretanto, devido à minha impaciência. Ia ao hospital quase diariamente.

O médico começara a me aplicar uma injeção muito usada naquela época, para o tratamento da sífilis, denominada “914”. Aplicação endovenosa e em dosagem progressiva em centigramas, dia sim, dia não. E no decorrer do tempo, eu chegara a tomar uma dosagem “cavalar” como se dizia naquele tempo.

Era uma medicação tão brava, que se por descuido do médico ou do enfermeiro, a agulha transpassasse a veia e penetrasse no músculo um mínimo que fosse daquele líquido, o paciente quase morria de dor!

Certa manhã isto se deu comigo lá no hospital e fora o próprio Dr. Hely quem me aplicara a injeção, precisamente na sala de curativos. Ele dedicava muita atenção ao seu trabalho; no entanto, naquela manhã, sucedeu algo de errado, porque ele deixou que a agulha perfurasse a veia de lado a lado e assim que uma quantidade mínima do líquido atingiu o músculo do meu braço, eu senti uma dor intolerável.

O Dr. Hely percebendo a minha reação, retirou incontinente a agulha da veia. Ato contínuo, fez-me deitar sobre a mesa e, manejando-a em seguida, me colocou de cabeça para baixo, enquanto preparava rápido outra seringa com determinada injeção que me aplicou no músculo, certamente para combater a dor que eu sentia.

Instantes depois, ele, movimentara a alavanca da mesa, me deixando deitado em posição normal. Em seguida, aplicou-me na veia a “914” sem mais nenhum contratempo. Lembro-me ainda, de que passei maus momentos naquela longínqua manhã.  

BRASÃO DO MUNICÍPIO DE ITAÚNA MG
CONSELHEIROS ITAUNENSES
Na década de 30 com a posse do Presidente Getúlio Vargas, as Câmaras Municipais foram substituídas e fechadas (Decreto nº 9.776, de 24 de novembro de 1930), passando a ser nomeadas de “Conselho Consultivo Municipal”.  Nos anos de 1936 e 1937 houve um retorno das Câmaras, todavia, com curta duração. Com o novo regime político instaurado e denominado de “Estado Novo”, por imposição do governo, realiza-se novamente os fechamentos de todos os Legislativos Municipais, voltando somente no final da década de 40.
O primeiro Conselho Consultivo Municipal de Itaúna foi realizado no dia 27 de dezembro de 1930, com os seguintes integrantes:
Empresário
Farmacêutico
Manoel Dias Corrêa
Empresário
Hely Nogueira
Médico
Antônio Augusto de Lima Coutinho
Médico Cirurgião



O MÉDICO E O FOOTING DA PRAÇA

Para demonstrar o quanto o Dr. Hely foi atencioso para comigo, passarei a relatar aqui certa ocorrência que se deu relativa a meu tratamento de saúde.

Naquela época, a Praça da Matriz era despida de qualquer arborização, sem o belo jardim que a ornamenta atualmente. Defronte à igreja, precisamente onde se acham localizados os bancos do passeio do jardim, erguia-se sobranceiro o belo “Cruzeiro de Madeira”, cujos braços pareciam querer apertar num amplexo espiritual as torres do tempo, tendo ainda a seus pés, uma calçada de pedras superpostas, onde à tardinha, ao pôr do sol, as pessoas amigas se assentavam para um bate-papo provinciano.

Já naquela época, havia na praça, nas noites de sábados e domingos, o célebre footing dos namorados.  Era o vaivém constante pra lá e pra cá. O Dr. Hely Nogueira fazia parte também daquela turma felizarda, tendo a seu lado a deusa de seu coração, com quem se casaria mais tarde.

No entardecer de certo domingo, eu foquei meio apavorado, meio nervoso com a minha doença e não tive a necessária paciência de esperar pela manhã do dia seguinte, a fim de conversar com o médico sobre o assunto. Descendo à noitinha, passei pela casa do Dr. Hely, mas não o encontrei, porque ele já havia saído de casa para encontrar-se com a sua pequena.

Eu continuei pela praça na companhia de um amigo, na expectativa de que ele surgisse ali a qualquer momento, ao lado de sua garota e não me enganei, porque ele apareceu realmente.

Depois que ele deus algumas voltas, enchi-me de coragem e fui ao seu encontro, pedindo-lhe licença para falar-lhe em particular. Atenciosamente, ele pediu permissão a sua namorada e veio falar comigo, um pouco afastado dali.

Falei-lhe então sobre a minha preocupação e solicitei-lhe o favor de me atender em seu consultório naquele instante. Delicadamente ele voltou à presença da sua pequena e pediu a esta que fosse à procura de sua amiga e ficasse na sua companhia até que ele me atendesse por alguns momentos.

Assim que chegamos ao seu consultório, aplicou-me uma injeção, certamente para me acalmar, passando depois a conversar comigo, naquela prosa amiga de médico para cliente: “Isso não vale nada e vai passar logo! ” Em seguida retornamos à praça e depois de meus agradecimentos pela sua atenção, ele foi ao reencontro de sua deusa.

Como veem, o Dr. Hely Nogueira fora extremamente delicado para comigo. Deixar a namorada em pleno footing numa noite de domingo, para atender a um pobre cliente apavorado, não era gesto para qualquer médico não!

Era preciso ser dedicado de verdade como ele o fora! Estes eram alguns traços da personalidade do Dr. Hely Nogueira, moço formado em medicina aos 21 anos de idade, nos ido de 1928.

HOSPITAL MANOEL GONÇALVES ITAÚNA MG


HOSPITAL MANOEL GONÇALVES ITAÚNA MG
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REFERÊNCIAS:
Pesquisa e Organização: Charles Aquino Historiador — Registro Profissional nº 0000343/MG
Acervo: Hemeroteca Digital Brasileira: Periódicos Digitais
Texto 1 e 3: FAGUNDES, Osório Martins. Fragmentos de Um Passado, pag. 128,129.
Texto 2: Charles Aquino.
SOUZA, Miguel Augusto Gonçalves de. História de Itaúna, BH, Ed. Littera Maciel Ltda, 1986, p.246. Vol.1.
Genealogia da Família Nogueira Penido: Guaracy de Castro Nogueira (In Memoriam) – Genealogista, Edward Rodrigues da Silva (Vavá) – Genealogista, Dr. Alan Penido – Genealogista, Aureo Nogueira da Silveira – Genealogista.
Acervo Genealógico e Arte: Charles Aquino, MyHeritage
Acervo: Câmara Municipal de Itaúna (Brasão)