quarta-feira, 13 de maio de 2026

PRESERVAR X DEMOLIR (III)

 

HISTÓRIA DA SAÚDE EM ITAÚNA MG
O CAMINHO DA RESTAURAÇÃO

Ao longo das décadas, o edifício da Casa de Caridade Manoel Gonçalves de Souza Moreira, conhecido como "Hospital Velho", permaneceu no centro de debates que refletiram o embate entre memória e modernidade.

Este capítulo aborda as principais etapas dessa jornada, documentadas pela imprensa local, que culminaram na retomada de seu valor histórico e na revitalização do prédio.

Desde os anos 1980, quando a possibilidade de demolição do “Hospital Velho” foi discutida publicamente, o imóvel enfrentou períodos de abandono e degradação.

Reportagens destacaram o prédio como um "fantasma" que assombrava Itaúna, com ruínas pichadas e riscos à segurança​.​ 

Apesar disso, os esforços de preservação nunca cessaram completamente. Em 2021, iniciativas começaram a tomar forma com a apresentação de um projeto de revitalização, que buscava equilibrar memória e funcionalidade​.

Entre 2023 e 2024, uma série de articulações administrativas e políticas marcaram a retomada efetiva do projeto de revitalização. Após longas negociações, o Codempace (Conselho Deliberativo Municipal do Patrimônio). 

Cultural Artístico e Ecológico de Itaúna) aprovou as obras, permitindo que o Ministério Público e outros parceiros direcionassem recursos para o início das reformas​. A imprensa noticiou atrasos causados por entraves burocráticos, que retardaram o avanço das intervenções, mas também destacou o crescente apoio de empresários e representantes locais​.

A partir de setembro de 2024, reuniões com empresários, engenheiros, agentes políticos e representantes do Hospital culminaram na aprovação final do projeto e na alocação de recursos para o início das obras. Com a fachada tombada e protegida pelo patrimônio histórico, as intervenções planejadas incluíram reforços estruturais, a reconstrução do telhado e a adaptação do interior para abrigar o setor administrativo​.

Em dezembro de 2024, as obras finalmente, começaram trazendo esperança à comunidade e resgatando o simbolismo do edifício como uma obra coletiva de caridade e memória. Jornalistas locais destacaram o impacto histórico desse momento, que não apenas reconstrói um prédio, mas reafirma valores comunitários e o legado de Manoel Gonçalves​.​

A restauração do “Hospital Velho” representa mais do que a recuperação de um patrimônio arquitetônico; é a preservação de uma identidade cultural que une gerações. Apesar das décadas de desafios, o esforço conjunto da sociedade itaunense triunfou sobre as adversidades, transformando o que antes era ruína em um símbolo de resistência e renovação. A trajetória de recuperação deste prédio histórico nos convida a refletir sobre a importância de preservar nossa memória coletiva, mesmo em face das complexidades do progresso.

PRESERVAR X DEMOLIR (PARTE IV)


Referências:

Pesquisa e organização: Charles Galvão de Aquino – Historiador  Registro nº 343/MG

Fontes:

JORNAL FOLHA DO POVO:

Se pode atrapalhar, Por que ajudar? 1 julho 2023.  Disponível em:  https://www.folhapovoitauna.com.br/se-pode-atrapalhar-por-que-ajudar

Aprovada obra no Prédio do Hospital Velho, 19 agosto 2023.Disponível em: https://www.folhapovoitauna.com.br/aprovada-obra-no-predio-do-hospital-velho

Vai começar a revitalização no Hospital, 19 outubro 2024. Disponível em: https://www.folhapovoitauna.com.br/vai-comecar-a-revitalizacao-no-hospital

Reconstruindo a História de Itaúna, 28 dezembro 2024. Disponível em: https://www.folhapovoitauna.com.br/reconstruindo-a-historia-de-itauna

 

JORNAL S’PASSO:

Prefeito e empresários firmam parceria para recuperação do prédio do antigo Hospital Manoel Gonçalves, 29, julho 2021. Disponível em: https://jornalspasso.com.br/prefeito-e-empresarios-firmam-parceria-para-recuperacao-do-predio-do-antigo-hospital-manoel-goncalves/

Prédios fantasmas assombram Itaúna, 28 agosto 2023. Disponível em: https://jornalspasso.com.br/predios-fantasmas-assombram-itauna/

Projeto de revitalização do antigo prédio da Casa de Caridade Manoel Gonçalves é retomado, 21 setembro 2024. Disponível em: https://jornalspasso.com.br/projeto-de-revitalizacao-do-antigo-predio-da-casa-de-caridade-manoel-goncalves-e-retomado/

Hospital anuncia obras em prédio antigo da instituição para ampliação do Centro Oncológico, 25 novembro 2024. Disponível em: https://jornalspasso.com.br/hospital-anuncia-obras-em-predio-antigo-da-instituicao-para-ampliacao-do-centro-oncologico/

Hospital Manoel Gonçalves inicia obras das ruínas do prédio antigo, 4 janeiro 2025. Disponível em: https://jornalspasso.com.br/hospital-manoel-goncalves-inicia-obras-das-ruinas-do-predio-antigo/

 

PRESERVAR X DEMOLIR (II)

 

O texto oferece um recorte detalhado de uma reunião sobre o destino do antigo hospital de Itaúna/MG


O título impactante "HOSPITAL SERÁ “TOMBADO” A PICARETA" transmite a ideia de uma destruição iminente, em vez de um "tombamento" que garantiria sua preservação histórica.

A reportagem tem como pauta principal “o destino do prédio velho do Hospital, a seção examinou duas propostas: A demolição até o limite de segurança e a interdição até realização das obras, mas somente da fachada”. 

Essa análise apresenta argumentos e posições dos participantes, que variam entre a demolição completa e a preservação parcial do prédio, destacando as complexidades técnicas e financeiras envolvidas.

 Participantes e suas Posições

Antônio Peres Guerra - Provedor da Fundação Casa de Caridade Manoel Gonçalves de Souza Moreira decidiu pela demolição do "Hospital Velho". Ele argumenta que o edifício ficou inativo por mais de 50 anos, o que torna inviável a restauração completa. 

Segundo Guerra, o prédio se encontra em condições estruturais insustentáveis, e os recursos financeiros disponíveis são insuficientes para um projeto de preservação. Ele sugere que a verba existente seja direcionada para a expansão do "Hospital Novo", enfatizando uma visão pragmática, onde a funcionalidade e segurança são prioridades sobre a preservação histórica.

Irdevan Nogueira Júnior - Arquiteto presente na reunião, que sugere uma solução intermediária: manter a fachada do prédio e reconstruir o restante. Ele defende a ideia de preservar ao menos uma parte do patrimônio, conciliando a preservação histórica com a necessidade de modernização e uso prático. Sua sugestão representa um ponto de equilíbrio, tentando atender tanto às demandas dos defensores do patrimônio quanto às limitações financeiras.

Doutor José Campos: Médico que também contribuiu com um ponto de vista prático, afirmando que o problema é "técnico, embora de ligações afetivas". Ele reconhece o valor afetivo do hospital, especialmente para o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (IEPHA), mas coloca a questão estrutural como prioridade. Sua posição sugere uma preocupação com a segurança, embora reconheça a importância simbólica do prédio.

Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (IEPHA): Embora não tenha sido representado diretamente na reunião, o IEPHA é mencionado pelo Dr. Campos como uma entidade que vê o prédio como patrimônio de “muito valor”. Isso reflete o interesse do instituto em preservar a estrutura como parte da memória cultural de Itaúna, contrastando com a posição dos gestores locais que priorizam a viabilidade técnica e financeira.

Juarez Campos (Diretor do ITA VOX): Como diretor do jornal que publicou a matéria, sua presença pode indicar um interesse em documentar e divulgar o debate sobre o destino do hospital. A cobertura jornalística enfatiza a importância do hospital para a comunidade e pode refletir uma visão crítica à falta de políticas de preservação do patrimônio histórico da cidade.

Dr. Peri Tupinambás, médico, se posiciona firmemente contra a demolição do antigo hospital Manoel Gonçalves em Itaúna, fazendo uma crítica incisiva às decisões que, segundo ele, refletem uma falta de respeito pela história e memória da cidade. Ele considera a demolição como uma "profanização" da história de Itaúna, enfatizando a importância de manter o prédio como um símbolo da identidade e do passado coletivo dos itaunenses.

Principais Pontos da Crítica de Peri Tupinambás:

Desvalorização da História: Peri Tupinambás destaca que a decisão de demolir o hospital é uma violação ao patrimônio cultural de Itaúna. Para ele, o hospital não é apenas um edifício antigo, mas uma peça fundamental da história da cidade, construída com propósito e valor emocional. A ideia de "profanizar" a história ao demolir o prédio demonstra a sua visão de que esse ato representa um desrespeito aos valores e tradições locais.

Crítica ao Abandono e às Decisões do Passado: Peri afirma que o "erro começou quando resolveram tirar de lá o hospital" e transferi-lo para outro edifício, deixando o antigo hospital ao abandono. Segundo ele, a decisão de construir um novo prédio e deixar o anterior à própria sorte foi um sinal claro da falta de compromisso dos governantes com o patrimônio e a história. Essa crítica revela sua visão de que, se o antigo hospital tivesse sido mantido em funcionamento ou restaurado na época, a discussão sobre demolição não estaria ocorrendo.

Ausência de Cidadania e Participação Popular: Tupinambás destaca a falta de envolvimento da população nas decisões sobre o hospital, sugerindo que a demolição foi decidida de maneira arbitrária, sem ouvir a voz dos cidadãos. Ele acredita que o poder público deveria ter consultado a comunidade e promovido um debate mais amplo, ao invés de impor uma decisão sem levar em conta o desejo coletivo de preservação histórica.

Potencial de Restauração: Ao declarar que “ainda poderia se fazer de novo o que era, bastando que houvesse a vontade de executar”, Tupinambás deixa claro que ele acredita na viabilidade de restaurar o edifício. Ele indica que, com empenho e investimento adequado, o prédio poderia ser revitalizado, preservando sua importância histórica e cultural.

Críticas à Administração Local: Peri critica a atitude das autoridades municipais da época, acusando-as de "calhordas" e de falta de comprometimento com Itaúna. Ele vai além e critica a "classe dominante e intelectualidade" que, segundo ele, apoiavam a demolição, questionando seu compromisso com os interesses culturais e patrimoniais da cidade.

Menção a Outros Defensores do Tombamento: No final, Peri menciona o professor Marco Elísio e Dona Arthurina como vozes que também defendem o tombamento e preservação do hospital. Isso indica que ele não está sozinho em sua posição e que há outros cidadãos influentes que compartilham a mesma visão de proteção ao patrimônio histórico.

Crítica ao Conselho do Hospital: Tupinambás também se refere de forma crítica ao conselho do hospital, que teria mantido uma postura inflexível contra o tombamento, evidenciando que a batalha pela preservação do prédio envolvia conflitos não apenas de opinião, mas de status e poder na cidade.

No encerramento dos debates, os participantes concluíram que a recuperação do edifício já deveria ter ocorrido há cerca de 30 anos. Estiveram presentes na sessão: o médico Helênio Eustáquio, o vice-provedor Dalmo Coutinho, o membro do Conselho Consultivo Waldemar Gonçalves de Souza e os conselheiros Ary Carvalho, Petrônio Nogueira Guimarães, José Joarez Silva, Afonso Henrique Silva Lima, Roberto Soares Nogueira, Affonso Cerqueira Lima, Mério Alves de Souza, Délcio Drummond, Elisa Tarabal, João Afonso Guimarães, Sebastião Miamoto, Professor Marco Elias, Augusto Machado, Luiz Guimarães, Meroveu Camargos e Geraldo Augusto Silveira.

Ao que tudo indica, a decisão de não demolir o antigo Hospital Velho prevaleceu. Passados aproximadamente 37 anos desde a publicação da matéria, o edifício permanece de pé, embora não tenha recebido nenhuma intervenção de restauração até o presente momento. Sua permanência sugere um compromisso com a preservação do patrimônio, mesmo que ainda não tenha se concretizado em ações de revitalização.

Aparentemente, a comunidade e os administradores da época reconheceram a importância cultural do prédio, ainda que a restauração tenham sido indefinidamente adiados. A estrutura permanece até hoje como testemunho do patrimônio histórico de Itaúna e de seu fundador, Manoel Gonçalves de Souza Moreira, carregando consigo um valor simbólico de resistência e memória para as gerações presentes e futuras.

PRESERVAR X DEMOLIR (PARTE III)


Referências:

Organização e pesquisa: Charles Galvão de Aquino – Historiador  Registro nº 343/MG

Fonte impressa: Jornal Ita Vox, 29 de dezembro de 1987 a 05 de janeiro de 1988

Reportagem original disponível no blog: Casa de Caridade Manoel Gonçalves

Imagem: Meramente ilustrativa 

    terça-feira, 12 de maio de 2026

    MANOEL GONÇALVES

      Manoel Gonçalves de Souza Moreira, eternizado na memória coletiva itaunense como “Manoelzinho do Hospital”, ocupa um dos lugares mais relevantes da história social, econômica e filantrópica de Itaúna. 

      Sua trajetória ultrapassa a figura de um simples comerciante bem-sucedido ou de um benemérito local.

       Ele representa uma geração de homens ligados à formação das elites econômicas do interior mineiro no final do século XIX, mas que, ao mesmo tempo, procuraram associar fortuna, religiosidade, progresso urbano e amparo coletivo em um projeto de desenvolvimento regional e construção civilizatória.

       Sua vida se entrelaça diretamente com a transformação de Sant’Ana do Rio São João Acima na moderna Itaúna, tornando praticamente impossível compreender a história da saúde, da educação e da própria formação urbana da cidade sem analisar sua atuação.

       Nascido em Sant’Ana do Rio São João Acima, atual Itaúna, em 19 de dezembro de 1851, e batizado poucos dias depois, em 29 de dezembro do mesmo ano, Manoel Gonçalves de Souza Moreira era filho de Manoel José de Souza Moreira e Anna Joaquina de Jesus.

       O batismo, celebrado pelo vigário João Batista de Miranda, já evidenciava a inserção da família em um influente núcleo político, econômico e religioso da região, revelando os vínculos dos Souza Moreira com as tradicionais estruturas de prestígio e poder do sertão mineiro oitocentista.

       O fato de possuir como padrinhos o Guarda-Mor Antônio de Souza Moreira e o vigário Antônio Maximiliano de Campos evidencia que os Souza Moreira estavam ligados às estruturas tradicionais de prestígio do sertão mineiro oitocentista, em um contexto no qual religião, poder local e relações familiares se confundiam profundamente.

    O registro de batismo preservado até os dias atuais tornou-se uma das mais antigas referências documentais da linhagem familiar em Itaúna.

       Seu pai foi considerado um dos pioneiros da industrialização local e fundador da casa comercial “Moreira & Filhos”, empreendimento que ajudou a transformar o antigo arraial em um dos principais centros comerciais do Centro-Oeste mineiro.

       Nesse ambiente, Manoel Gonçalves foi educado dentro da lógica do trabalho, da disciplina comercial e da administração patrimonial. Ainda jovem, ingressou na firma da família, onde construiu reputação como comerciante habilidoso, passando de balconista a gerente e, posteriormente, sócio do empreendimento.

       A própria dinâmica econômica de Itaúna naquele período ajuda a compreender sua ascensão. A cidade começava lentamente a abandonar estruturas rurais mais tradicionais para ingressar em uma economia baseada no comércio, nas manufaturas e nos investimentos industriais. Ele próprio tornar-se-ia uma das figuras centrais dessa transição econômica e urbana.

       Sua atuação empresarial ganhou enorme projeção com a fundação da Companhia de Tecidos Santanense, uma das experiências industriais mais importantes da história itaunense. Na assembleia de fundação realizada em 23 de outubro de 1891, Manoel Gonçalves subscreveu 400 ações, totalizando 80 contos de réis, valor extremamente elevado para os padrões da época.

       Apenas seu pai investiu mais do que ele. Ambos depositaram recursos consideráveis no Banco do Império do Brasil para viabilizar a criação da companhia, posteriormente considerada a pedra fundamental do capitalismo industrial itaunense.

       Esse dado é significativo porque demonstra que o empresário não foi apenas um filantropo religioso ou um benemérito assistencialista, mas também um agente econômico diretamente ligado ao surgimento de uma mentalidade empresarial moderna em Itaúna. 

       Sua projeção pública igualmente alcançou o campo político. Em 1889, participou da fundação do Clube Republicano “21 de Abril”, tornando-se seu presidente. O contexto era marcado pela crise final da monarquia brasileira e pela ascensão das ideias republicanas.

       Seu posicionamento antimonarquista revela alinhamento com setores modernizadores que defendiam novas formas de organização política e econômica. Pouco depois, participou da criação do jornal “Centro de Minas”, o primeiro periódico a circular em Sant’Ana do Rio São João Acima.

       A fundação de um jornal naquele período representava muito mais que uma iniciativa informativa. Tratava-se de instrumento de influência política, formação de opinião pública e consolidação das elites intelectuais e econômicas locais.

       Já consolidado financeiramente, Manoel Gonçalves transferiu-se para Belo Horizonte após a inauguração da nova capital mineira, em 1897. A mudança revela sua capacidade de perceber os novos centros de desenvolvimento econômico e político de Minas Gerais. 

       Em Belo Horizonte participou da fundação da Companhia Industrial Belo Horizonte e integrou sua primeira diretoria ao lado de figuras importantes da elite econômica mineira. Ainda assim, mesmo distante fisicamente, jamais rompeu os vínculos afetivos e simbólicos com Itaúna.



       Sua vida pessoal também ficou marcada pelo casamento com sua prima Maria Gonçalves de Souza Moreira, conhecida popularmente como Dona Cota. A união, realizada em 1894, tornou-se uma das mais emblemáticas da história social itaunense. Dona Cota posteriormente daria continuidade à obra assistencial do marido ao fundar o Orfanato São Vicente de Paula, ampliando o legado filantrópico da família.

       A trajetória do casal revela como determinadas famílias tradicionais mineiras articulavam patrimônio, religiosidade e caridade dentro de uma visão paternalista típica das elites católicas do período.

       Um dos episódios mais marcantes de sua vida foi a viagem à Europa realizada ao lado de Dona Cota na década de 1910. A experiência europeia parece ter provocado profunda reflexão em Manoel Gonçalves sobre o destino de sua fortuna e sobre o papel social que desejava desempenhar.

       Após retornar da Europa, já em idade avançada e sem filhos, passou a refletir sobre a utilização de seus bens em favor de Itaúna. Seu espírito cristão, associado a uma concepção de progresso social influenciada pelos modelos filantrópicos europeus, conduziu-o à decisão que eternizaria seu nome na história itaunense  ⸺  a criação da Casa de Caridade Manoel Gonçalves de Souza Moreira.

       A fundação da Casa de Caridade representou um marco decisivo na história da saúde em Itaúna. Em uma época marcada pela precariedade dos serviços médicos, pelas epidemias e pela ausência de assistência pública estruturada, a criação de um hospital significava literalmente salvar vidas e oferecer dignidade aos mais pobres.

       Manoel Gonçalves destinou parcela substancial de seu patrimônio à construção e manutenção da instituição, incluindo um hospital, um asilo para idosos e um pavilhão para tuberculosos.

       Seu testamento ainda previa investimentos educacionais para jovens itaunenses, revelando uma concepção ampla de intervenção assistencial baseada em saúde, educação e amparo aos vulneráveis.

       A importância da Casa de Caridade rapidamente ultrapassou os limites municipais. O hospital tornou-se referência regional, recebendo pacientes de diversas localidades. Relatos históricos descrevem o imponente edifício erguido próximo à linha férrea, equipado para práticas cirúrgicas modernas e reconhecido pela qualidade do atendimento médico. A instituição converteu-se em símbolo concreto da filantropia itaunense e da transformação da cidade em polo regional de assistência médica.

       Entretanto, reduzir Manoel Gonçalves apenas ao título de fundador do hospital significaria limitar profundamente sua importância histórica. Seu legado também se estendeu à educação. O excedente financeiro da Casa de Caridade possibilitou posteriormente a criação da Escola Manoel Gonçalves de Souza Moreira, da Escola Normal e do Colégio Santana.

       Assim, parte considerável da estrutura educacional tradicional de Itaúna nasceu diretamente dos recursos deixados por ele e administrados pela Casa de Caridade. A cidade moderna, em grande medida, foi edificada sobre esse patrimônio filantrópico.

       Ao longo dos anos posteriores à sua morte, a influência simbólica de Manoel Gonçalves de Souza Moreira permaneceu profundamente enraizada na memória urbana itaunense.

       Seu nome ultrapassou a condição de simples benemérito local para tornar-se referência moral e institucional associada à caridade, ao progresso e à assistência social.


       Em determinados círculos memorialistas e culturais, essa permanência histórica passou a ser associada ao chamado “Gonçalvismo”, entendido como a continuidade da influência social, patrimonial e simbólica da família Gonçalves sobre diferentes dimensões da formação histórica de Itaúna.

       Mais do que um conceito político formal, o chamado “Gonçalvismo” tornou-se uma representação memorial ligada à permanência da atuação da família Gonçalves na vida itaunense, mais associada à construção memorial e simbólica posterior do que a uma organização política formal.

       Hospitais, escolas, instituições beneficentes, patrimônios urbanos e discursos religiosos ajudaram a consolidar sua imagem como símbolo de caridade cristã, progresso urbano e filantropia católica. Sua memória passou a ocupar lugar central na construção simbólica da própria identidade histórica de Itaúna, consolidando-o como referência moral da cidade ao longo do século XX.

       Manoel Gonçalves faleceu em Belo Horizonte em junho de 1920, aos 68 anos de idade. Conforme seu desejo, foi sepultado em Itaúna, junto à instituição que carregaria eternamente seu nome. 

       Sua morte provocou forte comoção regional, não apenas pela perda de um homem rico e influente, mas pela partida de alguém que havia convertido patrimônio privado em instrumento coletivo de assistência e desenvolvimento social.

       Décadas depois, Monsenhor Hilton Gonçalves de Sousa afirmaria que Itaúna devia ao benemérito praticamente tudo oque possuía de mais importante nas áreas da caridade e da educação.

       A construção da imagem pública de “Manoelzinho do Hospital” também merece reflexão histórica. Sua memória foi transformada em símbolo moral da caridade cristã itaunense. Essa imagem, contudo, não surgiu espontaneamente. Ela foi construída ao longo do tempo por discursos religiosos, memorialistas, jornais locais e instituições que buscaram apresentar Manoel Gonçalves como modelo ideal de benfeitor, homem virtuoso e cidadão exemplar.

       Sua trajetória acabou associada à ideia de paternalismo social típica das elites mineiras do início do século XX, contexto em que grandes proprietários e empresários assumiam funções assistenciais diante da ausência do Estado. Ainda assim, independentemente das interpretações possíveis, permanece incontestável que sua atuação alterou profundamente a estrutura social de Itaúna.

       Mais de um século após sua morte, o nome de Manoel Gonçalves de Souza Moreira continua vivo na memória urbana, nas instituições de saúde e educação, nos registros históricos e no imaginário coletivo itaunense.

       Sua trajetória revela não apenas a história de um indivíduo, mas também o processo de formação urbana de Itaúna, a consolidação de elites econômicas locais, a expansão das práticas filantrópicas católicas e a construção de uma identidade baseada na solidariedade e no serviço ao próximo.

       Manoelzinho do Hospital transformou riqueza em legado histórico. Seu nome deixou de pertencer apenas à família Souza Moreira para tornar-se parte permanente da própria história de Itaúna.


    © ITAÚNA DÉCADAS
    Projeto independente de memória, história e patrimônio cultural.

    Texto, pesquisa, arte e concepção:
    Charles Galvão de Aquino
    Historiador — Registro Profissional nº 0000343/MG

     


    Referências

    Itaúna Décadas. Batismo Manoel Gonçalves. Disponível em: https://www.itaunadecadas.com.br/2020/07/manoel-goncalves-de-souza-moreira.html.

    Itaúna Décadas. Casa de Caridade Itaúna. Disponível em: https://www.itaunadecadas.com.br/2013/11/casa-de-caridade.html.

    Itaúna Décadas. Gonçalves pela Europa. Disponível em: https://www.itaunadecadas.com.br/2024/04/goncalves-pela-europa.html.

    Itaúna Décadas. Gonçalvismo em Itaúna. Disponível em: https://www.itaunadecadas.com.br/2024/06/goncalvismo-em-itauna.html.

    Itaúna Décadas. Legado Dona Cota. Disponível em: https://www.itaunadecadas.com.br/2024/07/legado-dona-cota.html.

    Itaúna Décadas. Manoel Gonçalves de Souza Moreira. Disponível em: https://www.itaunadecadas.com.br/2020/07/manoel-goncalves-de-souza-moreira.html.

    Itaúna Décadas. Manoel José de Souza Moreira. Disponível em: https://www.itaunadecadas.com.br/2018/05/manoel-jose-de-souza-moreira.html.

    Itaúna Décadas. Manoelzinho e Dona Cota. Disponível em: https://www.itaunadecadas.com.br/2013/11/batismo-manoel.html.

    Itaúna Décadas. Maria Gonçalves de Souza Moreira. Disponível em: https://www.itaunadecadas.com.br/2013/02/dona-cota.html.

    Itaúna Décadas. Santa Casa de Misericórdia. Disponível em: https://www.itaunadecadas.com.br/2019/01/santa-casa-de-misericordia.html.

    Itaúna Décadas. Testamento Manoel. Disponível em: https://www.itaunadecadas.com.br/2024/07/testamento-manoel.html.

      IMAGENS

    As imagens apresentadas nesta publicação não correspondem, em sua totalidade, a registros fotográficos originais da época. Parte do material consiste em reconstruções visuais interpretativas produzidas com auxílio de inteligência artificial (IA), desenvolvidas a partir de pesquisas históricas, documentos, fotografias antigas, descrições memorialistas, referências arquitetônicas e fontes iconográficas relacionadas à trajetória de Manoel Gonçalves de Souza Moreira, à Casa de Caridade e ao contexto histórico de Itaúna.

    Algumas imagens, como a representação do hospital, foram inspiradas em registro, fotografias e documentações históricas originais existentes. As composições possuem finalidade exclusivamente cultural, educativa e ilustrativa, buscando contribuir para a preservação, valorização e difusão da memória histórica itaunense.

    domingo, 9 de fevereiro de 2025

    DONA COTA & MANUEL

    Na trajetória de Manoel Gonçalves de Souza Moreira, não há como dissociar sua grandiosidade filantrópica da presença constante e marcante de sua esposa, Maria Gonçalves de Souza Moreira, carinhosamente conhecida como Dona Cota.
    O casal, unido não apenas pelos laços matrimoniais, mas também pela fé e pelo compromisso com a generosidade, protagonizou uma história de parceria, cumplicidade e devoção mútua.

    A história do casal Manoel e Dona Cota é um testemunho de que o verdadeiro amor transcende a vida cotidiana e se manifesta em gestos de grandeza. 

    Eles não apenas compartilharam uma trajetória comum, mas construíram, juntos, um legado de amor ao próximo, de devoção à caridade e de respeito mútuo.

     Hoje, ao olhar para a Casa de Caridade que leva o nome de Manoel, também se deve recordar a presença silenciosa, mas essencial, de Dona Cota – a mulher que, com sua ternura e força, foi o alicerce do grande homem que Itaúna/MG jamais esquecerá.

    LEGADO DONA COTA  ✅

    GONÇALVES PELA EUROPA ✅

    TESTAMENTO MANOEL GONÇALVES ✅


    Arte e texto: Charles Aquino 


    terça-feira, 15 de outubro de 2024

    PRESERVAR X DEMOLIR (PARTE I)

     1982

    Convido você a analisar a reportagem publicada no jornal Estado de Minas em 14 de julho de 1982, escrita pelo jornalista João Gabriel, que aborda um importante dilema enfrentado pela cidade de Itaúna/MG na época: a preservação ou a demolição da Casa de Caridade Manoel Gonçalves de Souza Moreira, o prédio mais antigo da cidade. 

    A discussão é enriquecida com diferentes pontos de vista, envolvendo várias figuras influentes como um promotor, um arquiteto, um escritor, médicos e professores, que expuseram suas opiniões sobre o valor histórico e cultural do edifício, em contraste com a necessidade urgente de modernizar as instalações hospitalares para melhor atender à população.

    Solicito você a refletir sobre esse episódio histórico e se colocar no lugar das pessoas envolvidas no debate: se fosse sua decisão, você optaria por preservar o edifício histórico, com seu valor simbólico e cultural, ou priorizaria a demolição, visando o desenvolvimento e a modernização das instalações hospitalares, essenciais para a comunidade? 

    Agora, você tem a oportunidade de revisitar essa discussão, refletindo sobre como esses diferentes pontos de vista moldaram o embate entre memória e progresso. Vamos analisar as posições dos principais personagens mencionados.

    1. Médico José Juarez Silva (Provedor da Casa de Caridade):

    José Juarez Silva, que estava à frente da Casa de Caridade, adota uma postura pragmática quanto à preservação do prédio. Ele acredita que, se os recursos estivessem disponíveis para restaurar o edifício, essa seria a solução ideal. No entanto, após consultar engenheiros, ficou claro que a restauração não era economicamente viável, levando-o a sugerir a demolição. Sua preocupação maior está em otimizar os recursos para melhorar as condições do hospital e adquirir novos equipamentos para a cidade, como um CTI e raios-X, que são necessidades mais urgentes para o atendimento à população.

    2. Promotor Faiçal David Freire Chequer (Representante do Ministério Público):

    O promotor Faiçal David Freire Chequer adota uma posição realista. Essa visão reflete sua preocupação em equilibrar passado e futuro: ele defende a preservação do patrimônio, mas dentro de um contexto onde o avanço do hospital e o bem-estar social não sejam prejudicados. Contudo, ele considera essa preservação válida "desde que não implique em barrar o desenvolvimento do hospital". 

    Ou seja, ele vê a preservação do patrimônio como relevante, mas subordinada às necessidades práticas e funcionais do hospital. Ao propor que o laudo técnico sobre o prédio inclua uma análise de viabilidade, Chequer demonstra sua intenção de aguardar uma avaliação detalhada antes de tomar uma decisão final.

    3. Médico Peri Tupinambás:

    Peri Tupinambás tem uma postura clara em defesa da preservação do prédio. Ele acredita que o prédio da Casa de Caridade é um marco histórico de Itaúna e, portanto, deve ser restaurado para preservar a memória da cidade. Como candidato à prefeitura, seu posicionamento parece refletir um respeito pelo patrimônio histórico, e ele argumenta que o valor simbólico do edifício transcende seu estado atual de ruínas.

    4. Escritor e Pesquisador David de Carvalho:

    David de Carvalho é outro defensor da preservação, argumentando que não se pode permitir que a cidade perca um prédio tão carregado de ideais e história. Ele vê na recuperação do prédio uma oportunidade para atender a comunidade em diferentes aspectos, inclusive como espaço cultural, fortalecendo assim o espírito de pertencimento da população com seu passado.

    5. Professor Guaracy de Castro Nogueira (Reitor da Universidade de Itaúna e Ex-Provedor da Casa de Caridade):

    O professor Guaracy de Castro Nogueira adota uma postura mais técnica. Ele considera o prédio irrecuperável devido ao seu estado avançado de deterioração. Para ele, a prioridade deve ser dada a investimentos na infraestrutura educacional e hospitalar da cidade, como a expansão do atual hospital e a criação de novas instalações acadêmicas na Universidade de Itaúna. Ele se opõe ao uso de recursos públicos para tentar salvar o prédio, que, segundo ele, está muito danificado para justificar sua restauração.

     6. Arquiteto Hélio Ferreira Pinto:

    O arquiteto Hélio Ferreira Pinto, uma autoridade no estilo neoclássico no Brasil, defende que o prédio é perfeitamente recuperável. Ele valoriza a história arquitetônica da Casa de Caridade, destacando o estilo neoclássico da construção e sua importância para a memória coletiva. Para ele, destruir o prédio seria um grande erro, e ele defende a restauração como algo não apenas possível, mas também necessário.

    7. Professor Marco Elísio Chaves Coutinho:

    Professor Marcos Elísio Coutinho, ligado à área de cultura e turismo de Itaúna, também advoga pela recuperação do prédio. Para ele, a restauração é urgente para que a cidade preserve sua memória e identidade cultural. Ele argumenta que, além de ser um bem arquitetônico, a Casa de Caridade representa a herança de Manoel Gonçalves, um importante benfeitor da cidade, cuja memória deve ser preservada.

    Comparação das Posições:

    As opiniões variam bastante entre os personagens. De um lado, temos os que defendem ativamente a preservação do prédio, que ressaltam a importância histórica, arquitetônica e cultural do edifício. Esses personagens acreditam que a recuperação é viável e essencial para a preservação da memória de Itaúna.

    Por outro lado, temos aqueles que, embora reconheçam a importância histórica do prédio, priorizam questões práticas e de desenvolvimento da cidade. Eles consideram que a prioridade deve ser o investimento em novas estruturas que atendam melhor às necessidades da população, como a ampliação do hospital e novas instalações universitárias. Para eles, o estado avançado de deterioração do prédio e a falta de recursos disponíveis tornam sua preservação inviável.

    A reportagem ilustra um dilema comum em muitas cidades: o equilíbrio entre a preservação do patrimônio histórico e o desenvolvimento urbano. Em Itaúna, o debate de 1982 sobre a Casa de Caridade Manoel Gonçalves de Souza Moreira mostra as tensões entre memória, cultura e progresso, refletidas nas diferentes visões dos personagens envolvidos.

    Nota

    Agora, em 2024, mais de quarenta anos após o embate sobre a preservação e demolição da Casa de Caridade Manoel Gonçalves de Souza Moreira, o edifício ainda "permanece de pé", mesmo com avisos de “risco iminente de desabamento”. Até o presente momento, o monumento histórico não foi restaurado nem demolido, o que sugere que, na época, a preocupação com a preservação prevaleceu. 

    Acredita-se que, naquela ocasião, tenha surgido um sentimento coletivo de esperança de que, em algum momento, o prédio fosse restaurado, mantendo viva a memória e a história que ele representa para a cidade de Itaúna.

    PRESERVAR X DEMOLIR (PARTE II) ✅

    PRESERVAR X DEMOLIR (PARTE III) ✅

    PRESERVAR X DEMOLIR (PARTE IV) ✅


    Referências:

    Organização, arte e pesquisa: Charles Aquino

    Fonte impressa: Jornal Estado de Minas, 1982.

    Casa de Caridade Manoel Gonçalves de Souza Moreira: Disponível em:

    https://itaunacaridade.blogspot.com/2014/12/dilema-preservar.html  

    https://itaunacaridade.blogspot.com/2014/12/blog-post_17.html

    Risco iminente: 

    https://itaunaemdecadas.blogspot.com/2024/01/risco-iminente.html

    Imagem: Meramente ilustrativa